A repórter, o suspeito e a vergonha.

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A cena é comum: mais um desses programas sensacionalistas de notícias que passam à tarde. O estilo faz escola, e os noticiários-espetáculo pipocam em vários canais da televisão, alavancando a audiência a qualquer custo. Mas esse caso, em especial, causou uma revolta crescente em praticamente todos os que assistiram: a repórter, loira e sarcástica, entrevista sadicamente o jovem negro, visivelmente atordoado, com ferimentos pelo rosto e mãos algemadas. Ele afirmava ter cometido um roubo, mas alegava inocência de um possível estupro, entre lágrimas e desespero. Pedia que se realizassem os exames necessários para comprovar que nada fizera, e em sua simplicidade, confunde o nome da perícia. Ela debocha jocosamente, ri, humilha, zomba de sua ignorância. Daí nos perguntamos: pra quê? Por quê?

E nós, estudantes de Comunicação, precisamos refletir sobre o que temos nas mãos: a possibilidade de informar, de denunciar, de criticar e construir. Mas também a possibilidade de deturpar, ignorar, humilhar, vender sob qualquer condição. O que faremos com isso tudo é de um peso imenso, algo que está imerso na tão falada ética; ética esta, que deveria saltar das ementas disciplinares e se tornar mais corriqueira nas redações, no exercício cotidiano. Ela, do alto de sua posição, utiliza todo o conhecimento adquirido em um curso universitário para cuspir, deteriorar, pisar. Esse episódio grotesco revela a irrelevância desse valor na disputa pelo IBOPE – e a nossa vergonha. A que ponto chegamos? Como uma equipe inteira permite que isso vá ao ar? Ferir os direitos humanos tornou-se corriqueiro, normal. As portas de nossas delegacias estão abertas à dita “imprensa”, para que “denuncie” os “bandidos”: sempre jovens negros, de periferia. Os de terno, brancos, dos gabinetes, ninguém fala: cachorro-grande. E ai de quem ousar.

A tal jornalista foi denunciada pelo Ministério Público. O caso repercutiu nacionalmente através da Internet, assim como a irresponsabilidade da emissora. O problema é que este ocorrido se repete diariamente, em várias emissoras, locais ou em rede nacional. Este é um entre milhares outros, que ficam perdidos num universo de “reportagens” de cunho duvidoso. Apenas um entre muitos que será punido, mas que ao menos servirá de exemplo para editores “avoados” por aí constatarem que não são onipotentes. E fica a necessidade de se criar um Marco Regulatório para a Comunicação, que permita que esse tipo de fato possua legislação própria, que possua parâmetros para que a tal “liberdade de imprensa” não passe por cima de tudo e de todos.

O rapaz nega ter cometido o crime, mas já foi condenado muito antes. Pior do que a agressão da polícia violenta, as interpelações da moça eram socos em sua imagem, em seu direito de defesa, em sua dignidade. É essa a Comunicação que lhe foi ensinada, Mirella Cunha? É tudo o que não queremos ser, é tudo que não queremos fazer. Seria ingênuo afirmar que os meios de Comunicação exercem ou almejam a imparcialidade, porque isso é impossível. Dizer que somos capazes de nos despir de todos os nossos valores ao entrar na frente das câmeras ou redigir seria quase leviano.
Mas um pouco de humanidade, por favor: essa não faz mal a ninguém.

Jullie Utsch (turma SEQS) tá revoltada.

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Uma resposta »

  1. Achei engraçado e sintomático como ela ainda, no meio de sua piadinha sem graça ou senso algum ela olha para a câmera (minuto 1:40) e diz: ” Uiziel (ou algo do tipo)… depois você não quer que o vídeo vá para o youtube!” Ou seja, ela atua seu show de horror também pq sabe que video engraçado vai para o youtube e fica-se famoso, como aconteceu com alguns famosos videos porta-de-cadeia, sucessores da série “Jeremias muito louco”. O que faltou foi bom senso na tentativa de humor pseudojornalístico, repórter filha da puta!

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